D. JOÃO MASCARENHAS (1632-1681)

MOMENTOS DE UM PERCURSO

 

 

D. João Mascarenhas, segundo Conde da Torre, Morgado de Coculim e Verodá na Índia[1] e primeiro Marquês de Fronteira, constitui-se como um personagem singular da nobreza de corte[2] portuguesa do século XVII, tendo-se salientado fundamentalmente pelo seu protagonismo militar nas guerras da Restauração, pelos cargos públicos e políticos que ocupou, bem como pela sua participação directa na vida cultural nacional.

 

Nasceu em Lisboa a 18 de Setembro de 1632, filho segundo de D. Fernando Mascarenhas (1587-1651) – primeiro Conde da Torre,[3] do Conselho de Estado de D. João IV, Presidente do Senado da Câmara de Lisboa[4] e de D. Maria de Noronha.[5]

 

A sua formação intelectual e estética terá decorrido dentro da atmosfera da corte espanhola em consequência das ligações estreitas entre a sua família e a Casa Real sita em Madrid.[6]

 

Contraiu casamento em 10 de Junho de 1651[7] com D. Madalena de Castro[8] filha dos terceiros Condes de Penaguião.

 

Um dos aspectos dominantes da sua biografia materializa-se na defesa da causa da Restauração da Monarquia Portuguesa e pelo inerente apoio dado à dinastia brigantina através da sua participação na 2ª fase das Guerras da Restauração, distinguindo-se particularmente nas batalhas das Linhas de Elvas (14/01-1659), Ameixial (18/07/1663) e Montes Claros (17/06/1665).

 

O seu protagonismo político é ainda relevante pela sua colaboração directa no movimento de deposição de D. Afonso VI (1643-1683) liderado por D. Pedro II (1648-1703) e que conduzirá à concessão por parte  do regente do título de Marquês de Fronteira em 7 de Janeiro de 1670: “Dom Pedro etta faço saber aos que esta minha carta virem que tendo respecto aos meretimentos e serviços de D. João mascarenhas Conde da Torre gentil homem da minha camara do conselho de guerra e vedor da fazenda tendo por certo que por aqui adiante continuara a me servir como pedem suas obrigacois (sic) e com aquele amor e lealdade com que athe ‘agora o fez imitando aquelles de que dessende e desejar por tudo e por quem hé o Conde e acressentar Sua pessoa muito e caza me praz e hei por bem fazer-lhe merce do titullo de Marquês de Fronteira.”[9]

 

Desempenhou numerosos cargos político-militares em que se destacam os de membro dos Conselhos de Estado e de Guerra de D. Pedro II, Gentil Homem da Câmara de El Rei, Mestre do Campo General da Estremadura e do Minho, General de Cavalaria do Alentejo, Grão Prior do Crato na Ordem de Malta, Vedor da Fazenda e Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa.[10]

 

Uma das vertentes do seu perfil biográfico reside na sua intervenção activa na vida cultural através da sua integração na Academia dos Generosos – círculo de intelectuais criado em 1647[11] que, agregando estrangeiros,[12] estrangeirados e nacionais,[13] se dedicou à análise e estudo das várias expressões academizantes da cultura clássica.

 

Esta agremiação como outras congéneres[14] decorre do reatamento das relações culturais com o mundo exterior à Península que tinham sido interrompidas durante a União Ibérica que tinha propiciado a desarticulação dos valores cosmopolitas e mundanos em favor da Corte na Aldeia.

 

É dentro desta atmosfera de tertúlia e de valorização da palavra que se inscrevem alguns sonetos escritos em língua espanhola, assinados por D. João Mascarenhas, revelando o seu alinhamento e participação expressa nas opções lúdicas e conceptualistas presentes nesta agremiação que sob a égide Apolo[15] – figura tutelar deste cenáculo – se dedicava ao culto da Poesia,[16] do Ensaio, da Prosa, da Filosofia Natural, da Mitologia, da História, etc.

 

Soneto

 

Nó fili al culto de tu pompa hermosa

Osado el aspid criminal se atreve

Biem que enganãdo al purpurear la nieve

Como sialagos sacrilegos osa

 

A la primera frangancia de una rosa

Amante solicita ardiente beve

Coanto alio far purpureo et alva lleve

Por copo carmezym faça olorosa

 

Uniendo-sse una rosa tus colores

Mas ó fily que osada confundida

Lamio la abeja el nectar de tus flores

 

Que tanto al primer ayre introduzida

Fragancia exalas humanado clores

Qui fiusti equivocada yo offendida

 

Do Conde da Torre[17]

 

Soneto da Academiaao excelentissimo senhor Conde de Xomberg Excelentissimo mestre de campo general das armas portuguesas, no dia em que com sua presença honrou a nossa Academia dos Generosos

 

Vos otros cuyos nombres soberanos

Altos elogios son de vostra fama

Llenando el orbe quando se derrama

Aplauso tanto por los ayres vanos

 

Toda la admiracion de los humanos

Alto prodigiosa contemplaros llama

Pues siendo Apolo della esquiva rama

Con gloria mucha, as coronais ufanos

 

Vozes humanos nos eram bastantes

Da alabaros, sino los excelentes

Rasgos de vuestas plumas elegantes

 

Dellos vuestra alabancia oygan las gentes

Que el árbol, que os desdéna por amantes

Corona os sirve ja por eloquentes.[18]

 

A D. João Mascarenhas são também atribuídas duas obras de natureza histórica: Relação das Províncias de Portugal, títulos, tribunais e rendas reais e Relação das Coutadas e casas de campo dos Reis de Portugal.[19]

 

Mas o primeiro Marquês de Fronteira terá deixado porventura o seu maior contributo no conjunto edificado e paisagístico da Quinta dos Loureiros[20] – actual Palácio Fronteira – cujo projecto terá ocorrido 1666 e 1672.[21]

 

D. João Mascarenhas revelou-se um encomendador atento não só na escolha do lugar de implantação da sua villa classicizante de base tratadística[22] – como na riqueza do programa iconográfico dos jardins e residência – nas várias expressões plásticas em que se materializou – arquitectura, escultura e azulejaria – criando um objecto artístico onde se conjugam valores compositivos e plásticos que revelam de forma inequívoca uma escolha pessoal.[23]

 

As opções lexicais presentes no conjunto edificado denunciam o imaginário do mecenas da obra que se articula veementemente com os rituais representativos e lúdicos da sociedade de corte coincidentes com os valores do Portugal Restaurado.

 

A celebração da história e da memória é uma das constantes na organização geral do conjunto edificado, mas tem particular expressão na Galeria dos Reis – Lago situado a Sul do Jardim de Aparato e na Sala das Batalhas – centro polarizador do espaço residencial.



[1] D. Filipe Mascarenhas, filho de D. Manuel Mascarenhas e D. Francisca de Ataíde, serviu na Índia sob a dinastia filipina. Em 1633 foi nomeado Governador de Moçambique, Sofala e Monomotapa, tendo promovido a fortificação das costas sob a sua jurisdição. Após a Restauração aderiu à dinastia brigantina, tendo sido nomeado por patente de 10 de Abril de 1644, Vice-Rei da Índia, cargo que exerceu de 1645 a 1651. Instituiu em 25 de Agosto de 1649 em favor do filho segundo de seu irmão D. Fernando Mascarenhas, o morgado de Coculim, por testamento lavrado em Goa. Cfr. Marieta Dá Mesquita, História e Arquitectura – Uma Proposta de Investigação – O Palácio dos Marqueses de Fronteira como Situação Exemplar da Arquitectura Residencial Erudita em Portugal “ Dissertação de Doutoramento, FA, UTL, Lisboa, 1992,Vol.II, pp. 179-184.  

[2] “ Mas quem estava na corte e era possuidor da qualidade de cortesão? O rei era o primeiro cortesão, aquele que justificava por si a existência deste submundo referencial. Seguiam-se os seus familiares mais directos. A “rainha velha”, se da mãe do rei se tratava, e a rainha sua esposa. Elas eram a garantia da manutenção da linhagem da casa real, ao mesmo tempo que as alianças de poder internacional. Os filhos, o príncipe herdeiro, os infantes e as princesas formavam o grupo seguinte. A casa real alargava-se depois aos cortesãos, esse misto de servidores do rei, dos seus familiares ou do aparelho de Estado, que viviam perto para os servir e para lhes validar a acção enquanto detentores do poder. Viviam na corte ciosos do amor que do rei podiam receber manobrando intrigas e formas de aproximação ao centro da corte, que o rei figurava e que os secretários de Estado ou o primeiro-ministro eram, em termos de exercício de poder dispensadores e intermediários de cargos e benesses”. A. Camões Gouveia “Estratégias de Interiorização da Disciplina – o Modelo Cortesão” in História de Portugal, Vol. IV, Lisboa, 1993, p. 419.

[3] O título de Conde da Torre foi conferido por Filipe III a D. Fernando Mascarenhas em 16 de Julho de 1638.Cfr. A.N.T.T., Chancelaria de D. Filipe III, L.27, fl. 214-214v.

[4] “ Durante a presidência do Conde da Torre, a Câmara, no prosseguimento de uma política de cultura (…) mandou imprimir o livro de Luís Marinho de Azevedo “ Fundação, Antiguidades e Grandezas de Lisboa”.”. Manuel Vaz Ferreira de Andrade, O Senado da Câmara e os seus Presidentes, Lisboa, 1961, p. 98.

[5] Cfr, A.N.T.T., Casa Fronteira, Parte III, nº 241, Contrato de Dote e Arras de D. Maria de Noronha em 29 de Agosto de 1612, Transcrito por Marieta Dá Mesquita, op. cit,Vol. II, pp. 1-5.

[6] “A ligação da família Mascarenhas à Coroa Espanhola é anterior à União Ibérica. A este propósito afirmaria José António Escudero “El principe Felipe tuvo también varias ayas, entre las que destacó la portuguesa Leonor Mascarenhas, que habiá de desempeñar un importante papel en sua educación y en la inclinación y afecto qui siempre tuvo a Portugal, tierra de su madre”; “El camino del trono Felipe I – Un monarca y su época – La Monarquia Hispánica”, Madrid, 1998, p. 97.

[7] Cfr A.N.T.T., Casa Fronteira, nº 241. Escriptura de casamento de D. João Mascarenhas e de D. Madalena de Castro, transcrito por Marieta Dá Mesquita, op. cit, vol. II, pp. 6-10.

[8] Do seu casamento com D. Madalena de Castro teve seis filhos respectivamente; D. Fernando Mascarenhas (segundo Marquês de Fronteira); D. Filipe Mascarenhas, D. Francisco Mascarenhas (primeiro Conde de Coculim), D. Isabel Mascarenhas, D. Francisca Mascarenhas e D. Joana Mascarenhas.

[9] A.N.T.T., Chancelaria de D. Afonso VI, L.35, fls. 25-25v.

[10] Cfr. Elze Von Matias, Academias nos séculos XVII e XVIII, Lisboa, 1988.

[11] Cfr. João Palma Ferreira, Academias Literárias dos séculos XVII e XVIII, Lisboa, 1982.

[12]A título de exemplo podem referir-se nesta categoria: Rafael Bluteau e Alexis Colottes de Jantillet, entre outros.

[13] Luís Serrão Pimentel (1613-1679), Frei António das Chagas (1631-1682) e D. Francisco Manuel de Melo (1608-1668) são também elementos integrantes deste grupo.

[14] Outros exemplos são a Academia dos Singulares, a Academia dos Estudiosos, a Academia dos Aplicados a Academia dos Anónimos, entre outras.

[15] Deus protector da Música, Poesia, Filosofia, Astronomia, Matemática, Medicina e Ciência, Apolo aparece representado no Palácio Fronteira em quatro situações distintas.

[16] A ligação do 2º Conde da Torre à Poesia está presente no programa do edifício – veja-se o painel dedicado à mesma na Galeria das Artes.

[17] A.N.T.T., Casa Fronteira, Parte I, nº 28, fls. 139-139v.

[18] A.N.T.T., Casa Fronteira, Parte I, nº 28, fl. 216.

[19] Cfr. José Cassiano Neves, Jardins e Palácio dos Marqueses de Fronteira, Lisboa, 1954, p. 69.

[20]  “Item uma quinta que chamão dos Loureiros que está junto ao Convento de São Domingos de Benfica que hé quinta nobre”. Inventário e Partilhas que se fizerão por morte e falecimento de D. Madalena de Castro Marqueza de Fronteira, 2 de Novembro de 1672.,  CFCFA, Transcrito por Marieta Dá Mesquita, op. cit., Vol II, p.14 e sgs.

[21] O relato feito pelo Marquês de Corsini, acompanhante de Cosimo III, futuro Grão-duque da Toscana, durante a viagem por ele realizada a Portugal em 1669, da sua estadia em Benfica em 7 de Fevereiro de 1669 constitui um dos suportes da datação das obras da quinta dos Loureiros. Cfr. Angel Sanchez Rivero e Angela Mariuli Rivero, Viage de Cosme de Medici por España y Portugal, Madrid, 1933.

É ainda de assinalar a pertinência da documentação do Archivo Mediceo del Principato, nº 9, que permite confirmar os finais do processo de execução em 1672. Cfr. Marieta Dá Mesquita, op. cit., Vol II, Documento 8,  p. 271.

[22] A observação do Livro VI de Serlio (1415 /1554) intitulado Habitationi di tutitI gradi degli huomini confirma heranças presentes na genealogia formal do edifício. A este propósito, veja-se Marieta Dá Mesquita, “Palácio Fronteira – um percurso arquitectónico” in Monumentos, nº7, Lisboa, 1997, pp. 3-7.